Na minha cabeça

 
Segunda-feira, 13 / 09 / 10

Retalhos - o Nº 4 - Coisas simples

Um pouco do retalho 4

 

Coisas simples

 

- Afinal, sempre vieste – perguntaste-me erguendo o copo em gesto de brinde e puxando um banco para te sentares, com um ar de quem tinha derrotado um bando de vilões.

- Tive de vir ver de onde vinha a tua fortuna… se o restaurante paga as cervejas aos amigos, este paga o quê? Os tremoços?

Aquilo saiu-me sem pensar e pressenti desde logo que fui cruel. Não sabia porquê, mas implicavas com o meu sistema nervoso. Claro que recebi um troco difícil de digerir.

- Aqui não se comem tremoços, apenas amendoins. Mas dá para pagar sim, esses que estás a comer e a bebida que pedi para te oferecerem---oh shit, é o meu salário inteiro de um mês nessa caipiroska! Mas deixa, eu sobrevivo – viraste a cara fazendo sinal ao barman para te entregar uma coca-cola.

Fiquei calada e um silêncio perturbador reinou à nossa volta, acabei por não te conseguir enfentar os olhos que faiscavam contra os meus.

- Então e tu, doutora, o que fazes por cá, algo que irá salvar o mundo?

- Sim, completamente, o meu mundo sem dúvida! – e escondi-me no copo para não te enfrentar.

Continuaste a olhar-me com ar desconfiado, à espera de uma resposta melhor.

- Ok, estou a fazer um curso, com estágio, de foto-reportagem. Sou jornalista mas não sei bem o que quero fazer. Na prática nem sei bem se quero ser jornalista, ou o que quero fazer…

- Estás em fuga, portanto – riste-te e seguraste a minha mão, fazendo-me estremecer – estás à procura de quê? O que querias que acontecesse agora, aqui?

- hummm – hesitei – assim uma coisa simples, sei lá, fotografar o Brad Pitt nu, escrever um best seller de culinária vegetariana, ser raptada assim para uma ilha nas Bahamas…

- Nada mau… e talvez possa ajudar-te afinal.

- O quê? Conheces o Brad?

- Muito melhor… tens aí o passaporte contigo?

Ri-me já meio embriagada.

- Claro, ando sempre com ele!

- Então vamos – e puxaste-me o braço.

- Mas, mas… a Carol…

A Carol estava em plena conversa com os amigos da banda dele, acenava-me satisfeita como que a dizer “vai, vai, eu fico!”

- Anda, só preciso passar num sítio antes – disseste enquanto me ajudavas a vestir o casaco e eu andava à tua roda sem acertar nas mangas.

- Mas vamos aonde?? Olha que eu já não estou muito certa, não estou habituada a beber, leva-me a casa sim?

- Sim, é uma casa, espectacular… - e empurraste-me para dentro de um taxi.

Parámos num lugar perto ao Central Pak, uma zona residencial de luxo com uma passadeira à porta- O teu ar parecia de um verdadeiro assaltante, mas curiosamente o porteiro deixou-te entrar. Eu fiquei no taxi completamente baralhada, mas havia algo que me dizia para seguir contigo aquela noite. Algo que palpitava nas minhas veias e não me deixava pensar em mais nada. Era deixar-me ir apenas, as duas capirokas ajudaram, já não bebia há algum tempo, fiquei mais relaxada e naquele momento onde quer que fosse contigo fazia-me feliz…mesmo que eu fosse partner no assalto a casas de luxo.

Voltaste com um mochila grandinha às costas e mandaste o taxi seguir para um lugar que não percebi.

- Então? – perguntei com uma gargalhada – Joias? diamantes? Quadros?

Olhaste-me esgazeado e piscaste o olho.

- Coisas muito mais valiosas, vais ver!

Seguimos em direcção ao aeroporto. Sim, parecia o aeroporto. Ainda gaguejei.

- Mas, mas…aqui há aviões…

- Há, muitos, imagina! Prontos a raptar-te por um fim-de-semana nas Bahamas.

Agora já estavamos fora do taxi, eu não tinha qualquer bagagem e comecei a pensar que efectivamente ía a qualquer lado não sabia bem como. Puxaste-me e deste-me a mão quente, senti-me a corar. De repente, parecia que te conhecia há anos, que tinha entrado num filme que nao me lembrava do início.

 - Anda, não penses muito, faz de conta que eu sou génio e que estou aqui para realizar-te um desejo… ou mais, se quiseres, basta que me agradem tambem! – sorriste descontraído, divertido por ver a minha cara de pânico, como quem se lança ao mar revolto sem saber nadar.

Continuei junto a ti sem dizer palavra, repetindo constantemente na minha cabeça “isto é um sonho, isto é um sonho”.

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publicado por closet às 03:04
Terça-feira, 17 / 08 / 10

Retalhos - o Nº 4

retalhos em bruto - o Nº 4

 

(...)

Era a primeira vez que viajava de avião sozinha e logo para tão longe, mas não estava nem um pouco assustada. Antes pelo contrário. Sentia uma liberdade imensa, como se me tivessem aberto uma janela após dias a fio de escuridão. Eu própria, sozinha comigo, era... tanto.

O check-in foi rápido e o tempo de espera no aeroporto acabou por parecer-me uma eternidade. Por sorte tinha conseguido um lugar na janela, era mais confortável e sempre podia encostar-me para dormir se me apetecesse.

Quando vou para desligar o telefone, vejo 3 novas mensagens. Uma da Marina com o telefone de uma amiga americana, para que eu não me sentisse sozinha (ela ainda não tinha percebido que eu queria isso mesmo, estar sozinha, conhecer livremente um mundo novo, unicamente pelos meus sentidos e aquela era a oportunidade da minha vida...). Ía apagar a mensagem, mas acabei por ficar com o telefone da Dasy, podia ser-me útil, numa cidade desconhecida..., assim, só para uma emergência, claro!

As outras duas eram do Rui. Nem podia esperar outra coisa. A primeira às 6h10 " Telefona antes de embarcares. Amo-te." A segunda às 7h00 "Mesmo distante, estarás cravada no meu coração. Sempre. Amo-te eternamente." Esta última arranhou-me, não com a emoção de há 3 anos atrás, infelismente. Antes com desespero. Rui era professor de Literatura na Universidade Nova. Tinha sido um aluno destacadíssimo no seu curso, fez o mestrado quase a brincar. As palavras eram a sua arma mais poderosa. Foram elas que me conquistaram quando eu ainda estava no início da faculdade, e ele era um finalista, bem falante e atraente.  Foram elas que me seduziram durante 3 anos de namoro. Aos poucos percebi que eram apenas palavras, às vezes mesmo citações que trazia escritas na sua inseparável Moleskine. Tinha sempre as palavras certas, ora alegres, ora dramáticas. Mas sempre palavra cegas, surdas e mudas.

Tratavam-se basicamente de monólogos. Comunicações unilaterais. Ele nunca esperava resposta, acho que nem lhe interessava. As suas palavras eram demasiado importantes para serem interrompidos por zumbidos, interpeladas por perguntas inúteis.

Olhava para as palavras "cravada”e “eternamente” e tive a certeza que era daquilo que mais fugia: estar cravada a algo ou alguém era verdadeiramente assustador. 

Respondi-lhe apenas “Atrasei-me. Estou mesmo a embarcar. Telefono quando aterrar.” Ía escrever “Amo-te” mas apaguei e subsitituí por “Bjs". Pareceu-me melhor. Desliguei o telefone de imediato. Não tinha vontade de ter uma daquelas conversas que terminavam invariavelmente numa discussão.

O meu lugar era mais ou menos a meio do avião. Junto à janela como me tinham garantido. Tirei apenas o meu livro da mochila, coloquei-a no compartimento por cima e preparava-me para começar a ler quando um sujeito, ainda com ar de sono, me interrompeu.

- Sou aqui ao seu lado, importa-se que passe a sua mala para o compartimento ao lado que está quase vazio para a minha mochila caber aqui?

A mochila dele, com ar sebento, e aspecto de ter andado na 2ª Guerra Mundial,  era de facto enorme. Mas mesmo assim achei que haveria espaço para as duas, afinal a minha 'mala', como ele lhe chamou, era uma mochila pequena e citadina. Respondi-lhe:

- Penso que cabem as duas. Eu não me importo que a minha 'mochila' fique apertada - gracejei.

- Bem, Sendo assim.... acho que vão ter mais intimidade que a maioria dos casais - e continuou com uma voz meio rouca - 8h de intimidade seguidas, entrelaçadas, alças a penetrarem umas nas outras, fechos a roçarem, bolsas a tocarem-se impunemente. Hummm... E tudo no escurinho mesmo por cima das nossas cabeças… Uma orgia invejável, não te parece?

"te parece" pensei. Agora já era "te", dei-lhe a mão e já agarrou o braço...

Sentou-se pesadamente ao meu lado depois de fechar o compartimento. Parecia não dormir há 3 dias, talvez 4. Sei lá. O cabelo cor de palha um pouco comprido, ondulado e com ar de não conhecer um pente há semanas, a pele morena, demasiado para aquela altura do ano 'devia fazer surf ou algo no ar livre' pensei. Os olhos eram grandes de um verde mesclado, tinham uma cor indefinida. Mas eram eles que lhe davam toda a expressão ao rosto, a maneira como os abria e fechava, como ziguezagueavam enquanto proferia aquela enchorrada de disparates. Tinha talvez 1,80m e um corpo esguio. Não consegui perceber a contituição do seu corpo escondido por baixo de umas calças de ganga russas, descaídas e largas e uma sweat preta deslavada com uma estampagem de algo irreconhecível, também larga demais para o seu tronco. À parte de ter a barba por fazer há pelo menos 2 dias, não lhe encontrei nenhum sinal particular. Tinha nitidamente ar e voz de bohémio, cheirava a tabaco e gin e tive a certeza que tinha vindo directo de um bar de frequência duvidosa.

Mesmo assim, não consegui ficar indiferente à sua loucura, e respondi-lhe na mesma língua sorrindo:

- Sim, sem dúvida vão divertir-se mais do que nós.

- Bem... não seja por isso, há ali ao fundo uma casa-de-banho pequenininha, desconfortável eu sei, mas acho que caberiamos lá os dois...- disse com ar repentinamente sério, contendo um riso ao ver o meu ar enfadado – Ah, pois... lá não dá para desligar as luzes, não tinha a mesma graça.

E recostou-se fechando os olhos, fingindo nem perceber o meu ar de desinteresse. O ar esgazeado dele bastava para perceber que ainda vinha com os efeitos da noite a percorrer-lhe o sangue. Coloquei o cinto e o meu livro por cima das pernas, como para lhe mostrar que não ia existir qualquer espaço para conversa entre os dois. Ele reparou e lançou um olhar trocista, entortando o pescoço para ler o título 'Sputnik meu amor'. Arrependi-me logo ter trazido aquele livro, com aquela criatura ao meu lado escapou-lhe logo, revirando os olhos para cima suspirando.

- Nada como um amor no espaço…

Aquele tipo não perdia uma oportunidade e a verdade é que tinha de admitir que até tinha graça. Não consegui evitar um sorriso, ainda que ele me pudesse custar atura-lo com mais disparates o resto da viagem.

Finalmente descolámos e nesse momento ainda tive de ouvir um “Iuhuuuu... Sputnik, cá vamos nós”.

Como seria de esperar, o tipo não estava só de ressaca, mas também com a noite em branco. Ainda não tinham passado 20 minutos e já ele estava completamente ferrado a dormir, descaindo constantemente a cabeça para cima do meu ombro. Por mais que o empurrasse nada o fazia acordar. ‘Era só o que me faltava' pensei, 'com sorte tenho de passar 8 horas com um tresloucado desconhecido, a tresandar a cigarros e alcool, estatelado no meu ombro’.

E assim foi a minha sina a viagem inteira. Com uma breve pausa para almoçar (que tenho a impressão que o fez de olhos fechados) e uma ída à casa-de-banho numa espécie de sonambulismo atrás de mim (e nessa altura tive algumas esperanças que adormecesse por lá ou não conseguisse voltar ao lugar, qualquer coisa servia desde que me livrasse dele. Mas nada, voltou e continuou no seu sono de belo adormecido).

Faltavam 30 minutos para aterrarmos quando resolveu acordar do seu sono profundo. Espreguiçou-se ruidosamente e ainda teve o desplante de dizer:

- Que bela viagem - continuando a bocejar incessantemente.

- Ai sim? Só se foi para ti, eu tenho um hematoma no ombro com toda a certeza...- respondi-lhe arrumando o meu livro na bolsa do banco da frente. Pela primeira vez ele pareceu perceber o contexto real, e vi na sua expressão algo semelhante a um ar envergonhado, se é que ele era capaz de tal sentimento.

- Peço desculpa -  e olhou para o meu ombro amassado tocando-lhe ao de leve– sinceramente não tinha intenção de massacrar-te a viagem toda.

A sua voz parecia de repente estupidamente educada e sincera, longe dos gracejos anteriores, para além de um tom rouco aveludado, quase sensual.

- Vá, deixa, já estamos a chegar e devem existir pomadas em qualquer farmácia de Nova Iorque - gracejei sorrindo-lhe.

Ele pareceu aliviado e comportou-se de forma normal até aterrarmos. Mal nos levantámos cumprimentou-me como se estivesse a ver-me pela primeira vez, assim à laia de balconista de hotel.

- Welcome to New York! Boas férias

- Obrigada, mas não estou de férias – disse com um certo orgulho súbito, como se fizesse aquela viagem de dois em dois meses.

- Ah não? Hum... que pena. Olha, nem eu - e levantou-se abrindo o compartimento das mochilas, mas voltou a fechá-lo de repente. Olhando horrorizado para mim e abrindo os seus grandes olhos  verdes.

- Ainda não estavam vestidas - e desatou a rir.

Soltei uma gargalhada inevitável. Afinal os disparates não eram resultado do sono ou do que tinha ingerido, ele era mesmo assim. Voltou a abrir o compartimento e entregou-me a minha mochila.

- Hummm… - olhei-a atentamente - parece feliz!

- E haverá algo melhor que fazer amor nas nuvens? - e piscou-me o olho sorrindo. Fazia uma espécie de covinhas de lado, apesar de estarem tapadas com a barba por fazer. Imaginei-o de banho tomado, cabelo lavado e barba feita e a imagem pareceu-me bastante mais agradável.

Separámo-nos no aeroporto com um “tchau, até um dia” e vi-o desaparecer no meio da multidão, com a sua velha mochila às costas. Ao que parecia não tinha bagagem de porão. Fiquei ali parada, estática, por uns segundos estranhos, a acenar-lhe com o olhar, aquele sujeito louco, de andar desengonçado e voz rouca aveludada, estupidamente divertido. O que faria ele ali? E dei por mim a abraçar a minha mochila contra o peito, como se fosse assim abraça-lo também, numa espécie de despedida de um sonho, do qual se acorda contrariada ainda com as imagens nítidas mas desordenadas no cérebro.

(...)

 

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publicado por closet às 01:52
Quarta-feira, 28 / 07 / 10

Retalhos - o Nº 5

Este foi talvez o acidente mais disparatado da minha vida. Vendo bem, tudo entre nós foi uma tremenda confusão numa mistura de estilo entre a comédia e o drama.

Num final de tarde de uma sexta-feira de Junho, entrei no parque de estacionamento dos Restauradores porque ía levantar um vestido que tinha ficado a subir bainha numa loja ali perto.

Mal vi um lugar a vagar, guinei o volante num ápice e … bummm. Uma viatura chocou contra o meu Toyota Yaris arremessando-me para trás. Com o impacto deixei o carro ir abaixo. Quando recuperei a lucidez percebi que se tratava de um BMW grande, preto lustroso, com apenas 3 meses de vida, que tinha batido de marcha atrás contra o meu.

Saiu do carro um sujeito ajeitando as calças do fato azul-escuro, com um ar arrogante, e olhava para o meu carro como se fosse uma carripana velha de caixa aberta.

- Sim senhora…- balbuciou entre dentes, passando o dedo pelo lábio debaixo. O cabelo escuro curto numa pele morena e bem hidratada dava-lhe talvez menos idade do que realmente tinha. Talvez 35 ou 36 anos, não mais do que isso. Com uns olhos expressivos azuis que rejubilavam de gozo ao ver a minha figura atrapalhada a sair do carro. Desde o primeiro momento que o vi, senti uma espécie de atracção-ódio. Tudo o que lhe dava alguma graça também me irritava estupidamente.

- Mas de onde é que veio? Eu ía estacionar aí… - reagi segura de que estava coberta de razão, passando os olhos pelo meu pára-choques amolgado e com o farol esquerdo partido.

- Ah ía? E eu a pensar que gostava mesmo era de carrinhos de choque… - respondeu enquanto olhava atento a parte detrás do seu carro como se fosse uma obra de arte preciosa. – Pois eu já estava a estacionar primeiro do outro lado, e não estava à espera que um carro louco viesse contra o meu.

- Mas eu não adivinhava que vinha um carro do outro lado a estacionar de marcha a trás, ou por acaso costuma andar ao contrário? – O meu tom de voz subiu e comecei a sentir-me verdadeiramente irritada.

- Bom, não me interessa, você bateu-me por trás por isso vamos tratar da papelada do seguro e despacharmos isto porque eu amanhã tenho de entregar as coisas na empresa.

- O quê? Ainda diz que eu sou a culpada?

- Não me diga que pensa que sou eu? Claro, só podia, mulheres… - o típico comentário de macho latino que eu embirrava começava a turvar-me a visão.

- Oiça, então chamamos a polícia, e quero ver você a explicar-lhe que estaciona de marcha atrás… sim, porque homem que é homem estaciona da forma mais complicada… – ironizei recostando-me ao carro e cruzando os braços. – O melhor é dar-se por culpado e assinar a declaração.

O telemóvel tocou nesse preciso momento e afastou-se um pouco. Ainda assim ouvi qualquer coisa como “esse desmarca, sim, esse aceita. Vou, vou agora, a que horas é que é mesmo? ‘Tá. Obrigada” e desligou. “Devia ser a secretária, não tinha aliança no dedo…” pensei enquanto ele voltava para junto de mim.

- Bom – disse como se eu fosse assim um empregado de mesa - eu tenho um jantar importante aqui no Avenida Palace. É daqueles jantares chatos de representação da empresa, mas tenho mesmo de ir. Se você vier comigo – e olhou-me de repente de cima abaixo para se certificar que o meu vestido era apresentável– depois do jantar eu assino-lhe os papeis todos e a empresa paga isto tudo. Pode ser’?

“Pode ser?” Pensei, incrédula na proposta indecente que me fazia. Eu vinha de uma apresentação de um projecto e, por acaso até vinha com um dos meus melhores vestidos citadinos e de salto alto, mas senti-me a própria gata borralheira em vésperas do baile.

- Você é louco? – Saltou-me logo da boca para fora – Jantar? Bateu-me no carro e ainda quer que vá jantar consigo e com pessoas que não conheço de lado nenhum?

- Eu também não os conheço, ainda por cima são da Suiça. Na verdade também acho que deve ser uma grande seca, mas são uns clientes novos e importantes da empresa e o director comercial está fora, pediu-me para os acompanhar… É verdade? Você fala francês?

Cada vez me convencia mais que tinha entrado para um filme, daqueles ao estilo de Woody Allen. “Agora o fulano devia querer uma intérprete” pensei. Mas as minhas finanças não estavam nada bem e pagar o arranjo do carro era a última coisa que me apetecia…

O único programa que tinha para aquela sexta-feira era ficar no sofá a comer um gelado enquanto via um filme alugado (o que comparando com um jantar com desconhecidos suíços e um louco que faz propostas indecentes à base de chantagem, até era um programa magnífico, convenhamos). Ainda hoje não sei o que me passou pela cabeça para dizer aquelas palavras.

- Ok, então tire o carro para eu chegar o meu à frente – e entrei no carro sem te olhar nos olhos (...)

 

e continua :)

publicado por closet às 02:00
Sábado, 19 / 06 / 10

O Safari

Já há muito tempo que tínhamos programado aquela viagem ao Botswana, mas, por um ou outro motivo, esta tinha sido sempre adiada. O meu marido era apaixonado pelo Continente Africano, desde a beleza das paisagens infindáveis, aos perigosos e imponentes animais selvagens que o povoavam. Tudo naquele continente lhe causava emoção e, por esse motivo, ano após ano, íamos conhecendo um novo país, partíamos numa nova aventura. Sempre munido da sua máquina fotográfica, de ano para ano / cada vez mais sofisticada, garantindo-lhe de regresso a casa um testemunho vivo das cores de África.

Finalmente chegou o dia marcado para o tão aguardado Safari ao Chobe National Park, onde iríamos pernoitar duas noites num Lodge exótico no meio da savana. O Guia esperava-nos pontualmente às 8h no átrio do hotel. Apresentou-se num inglês coloquial e pediu-nos para esperar por um casal que estava atrasado. Apenas 6 pessoas se tinham inscrito, 3 casais contando connosco. Um casal de meia-idade já aguardava quando chegámos, ambos vestidos a rigor para um safari. Chapéu de abas largas, calças verde tropa repletas de bolsos, camisa branca de manga curta com lenço ao pescoço e umas botas de montanhismo. Na verdade, pareciam saídos de um catálogo do Coronel Tapiocca, de tal forma que sentimo-nos mal vestidos com os nossos velhos calções meio gastos, t-shirts básicas e ténis arejados da Decathlon. O homem, de barba e bigode grisalho, com uns óculos de armação redonda metálica, manipulava sem cessar uma máquina fotográfica, digna de causar inveja a qualquer fotógrafo profissional, parecendo querer certificar-se que tudo estava operacional. Já ela, de cabeleira loira platinada, amarrada por um elástico ao fundo da nuca, trazia apenas uma Canon de bolso, pequena e fina, e parecia estar tão tranquila como se aguardasse por um passeio no Guadiana. Tal como nós, ambos vinham munidos de sacos de desporto bem recheados, pois nunca se sabe o que nos poderia esperar na selva.

Finalmente chegou o outro casal, dois jovens ainda na casa dos vinte que, apesar dos 15 minutos de atraso, saíram do elevador agarrados aos beijos e assim continuaram a caminhar na nossa direcção indiferentes aos olhares indignados. Traziam uma única mochila preta, mas de tamanho considerável. Nem máquinas, nem binóculos. Ele era alto e entroncado, de pele morena, e vestia umas calças de ganga com uma camisa larga em xadrez de manga curta. Ela trazia uns calções curtos, deixando à vista as suas longas pernas, e uma blusa justa de alças coberta pelos seus abundantes caracóis ruivos. Ambos tinham vulgares bonés na cabeça e calçavam uns típicos ténis desportivos. Questionei-me seriamente se eles sabiam para o que iam, ou se por algum motivo pensavam que iam visitar algum estádio de futebol. O Guia entregou-lhes a informação da viagem e conduziu-nos ao jipe de 6 lugares que nos ia levar ao interior da savana.

O casal de meia-idade apetrechado de cantis, binóculos, máquinas e mapas, entrou logo para a primeira fila sem hesitar. O casal de namorados ficou para trás aos sussurros, pelo que não esperámos e entrámos para a fila do meio. Fiquei a saber pelo discurso de apresentação do Guia que o casal de meia-idade era de Londres e os pombinhos eram franceses em lua-de-mel.

Apesar dos 33º que se faziam sentir já aquela hora do dia, e sem correr uma única aragem, a viagem fez-se bem, com o Guia a descrever como iria ser o nosso dia, as precauções que devíamos ter e o percurso e respectivas paragens.

Foi um dia inesquecível, em que conseguimos ver de perto animais como elefantes de grande porte, búfalos, girafas e zebras. O casal de meia-idade fazia inúmeras perguntas sobre as espécies e seus hábitos e comportamentos e eu aproveitava para registar no meu caderninho de viagem o máximo de informação que conseguia. Enquanto isso o meu marido encarregava-se da reportagem fotográfica. Durante o dia inteiro mal se dava pelo casal francês, e sempre que olhava para trás lá estavam eles abraçados, olhando para a paisagem como se fossem num tour normalíssimo, assim pela Av. da Liberdade até ao Terreiro do Paço. Não tiravam fotos, nem mostravam especial interesse por qualquer espécie de animais ou aves. Apenas davam um pouco mais de atenção quando o Guia explicava qual era o próximo destino. A francesa dizia “Pierre, Pierre” como que para ele prestar atenção, e o Pierre lá perguntava quanto tempo faltava para chegarem ao acampamento. Já o inglês, que dava por nome de Charles, tirava inúmeras fotografias em disparos sequenciais, enquanto a mulher, curiosamente, tirava-lhe fotografias a ele em plena pose fotográfica. Não pude deixar de pensar que se tratavam dos parceiros de viagem mais surreais que poderíamos encontrar.

Por volta das 18h chegámos ao acampamento, exaustos e pegajosos do bafo quente que parecia colar-se à nossa pele empoeirada. O hotel era composto por luxuosos bungalows de madeira e tectos exóticos, com uma casa de campo central que servia simultaneamente de lounge e para refeições.

O casal de pombinhos recolheu-se imediatamente no seu bungalow, pedindo para que o jantar lhes fosse servido em privado. O meu marido ainda tentou ajudá-lo a içar a grande mochila que transportava mas o francês afastou-o com um “c’est pas nécessaire, merci”.

Mesmo considerando um luxo exagerado, aquele chalet só para nós sabia bastante bem, em especial um banho de imersão relaxante seguido de uma leve refeição de boas-vindas com um licor e frutas exóticas.

Jantámos no restaurante com outros turistas que também lá se encontravam e pudemos ver ao longe os ingleses a comer numa mesa ao fundo. Ele revia meticulosamente algo na sua máquina fotográfica e ela continuava a tirar-lhe de quando em vez fotografias nas poses mais inusitadas. Do casalinho nem vestígios, provavelmente estariam a aproveitar o exotismo da cabana brindando à sua lua-de-mel.

Fomos deitar-nos cedo, pelas 23h00, estávamos efectivamente cansados e tínhamos de acordar novamente cedo na manhã seguinte. Despedimo-nos do Guia e seguimos para a nossa Cabana. A cama em dossel pareceu-nos um pequeno paraíso para os nossos corpos fustigados, de tal forma que me deixei adormecer mal caí na cama.

A meio da noite acordei sobressaltada com um grito agudo, histérico, que não cessava. Corremos para fora do bungalow, à semelhança de outros tantos turistas, mas era impossível detectar de onde provinha o grito. O nosso Guia também apareceu assustado e, logo a seguir, vimos a inglesa platinada em estado de choque, caminhando com a camisa de noite manchada de sangue.

Corremos até ela que tremia e apontava na direcção do mato… Gemia qualquer coisa imperceptível. Seguimos o nosso Guia que empunhava uma lanterna e deparámo-nos com o Charles no chão, agachado de roupa rasgada, sobre uma poça de sangue. Pierre encontrava-se junto dele com uma caçadeira e uma arma de arpão ambas pousadas no chão prendendo as suas mãos e pés com cordas. Ao ver-nos fez sinal para nos afastarmos “ne vous approchez pas” dizia de semblante carregado mas com um ar vitorioso. O Guia transpirava de nervoso e a medo fez-lhe sinal para se aproximar. Trocaram palavras enquanto Pierre colocava uma rede grossa em volta do corpo de Charles que jazia no chão. A Inglesa soluçava agarrada a uma outra estrangeira que a abraçava. Eu mesma não sabia o que fazer, afinal ela era do meu grupo mas nem sequer lhe conhecia o nome… O Guia ajudou o francês a transportar o corpo enredado com a ajuda de um tronco, como se de um animal se tratasse. Pediu-nos para regressarmos ao hotel que nos explicaria tudo.

Foi então que ficámos a saber que Pierre era um agente secreto, caçador especializado de Lobisomens, e que há muito tempo andava no encalço de Charles. Naquela noite apanhou-o em plena transformação, tal predador em caça de alimento. A sua mulher assistiu a tudo, horrorizada. Ela que suspeitava que o seu marido sofria de uma doença rara, e por isso fotografava-o a toda a hora para entregar as fotografias aos médicos que o seguiam, entre sintomas de suores constantes acompanhados de uma espertina nocturna, para além de súbitas reacções bruscas e, claro, a paranóia por selvas e por conhecer tudo sobre as suas presas. Nos seus mais recônditos pesadelos, ela nunca imaginaria que dormia há 7 anos com um lobisomem.

 

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publicado por closet às 16:50
Quarta-feira, 03 / 03 / 10

Dacing with myself - cap 1

Capítulo 1

 
Na mesa de café conversavam sobre os últimos ensaios, do nervosismo. Entre amigos, Carla olhava distante enquanto remexia na pequena mala de pano preto despojada em cima da mesa. Encontra o telefone, mas já não foi a tempo. Olha a chamada não atendida e um sorriso rasga-se nos seus lábios bem delineados. Um boca estranhamente fina para a sua raça negra, influências do seu avô branco que nunca chegou a conhecer.
 
Carla nasceu em Cabo Verde mas aos seis anos veio viver para Portugal com uma tia. Os seus pais ficaram por lá, o pai conhecido por Tó, mas de nome Florêncio, era motorista de um autocarro de turistas, e a mãe Sandi era cozinheira num hotel desde os 15 anos. Uma vida simples mas que não ambicionavam para a sua filha. E foi com o sonho de ser “alguém” que Carla veio estudar para Portugal. Quis o destino que Carla demonstrasse uma vocação inata para dançar e, mesmo contra a vontade da tia Elmira que sempre tratou a sobrinha como filha e sonhava para ela uma carreira em advocacia, acabou por ingressar numa academia de Ballet.
O seu talento era elogiado pelos professores, que cada vez lhe usurpavam mais horas do seu dia com ensaios e audições para os mais variados espectáculos. E foi assim que aos 17 anos Carla ganhava uma bolsa para frequentar um curso em Londres, deixando definitivamente para trás o curso superior. 
 
Com o seu 1,65cm de altura, elegantemente distribuído num corpo esguio, feições finas e olhos escuros rasgados, Carla possuía uma beleza invulgar, exótica, perceptível a qualquer pessoa. Mas isso não foi suficiente para viver a adolescência como uma rapariga da sua idade. Com a escassez de tempo livre que tinha, Carla habituou-se a partilhar a vida com um espelho, e dizia mesmo em tom de brincadeira que “ficava em boa companhia”. Apesar de todos na escola simpatizarem com ela, não tinha muitos amigos, não saía à noite, não tinha namorados, não fumava e não bebia álcool.
Foi inesperadamente aos 17 anos que o seu coração conheceu pela primeira vez uma aceleração diferente, maior do que a que estava habituado numa estreia de um espectáculo. Conheceu João numa tarde de Verão, um estudante de jornalismo que frequentava o café onde trabalhava a sua tia. Foram trocando algumas palavras, de dia para dia, e ele dizia-lhe que, quando ela fosse famosa, iria fazer uma reportagem sobre ela, mas que iria revelar ao mundo o seu vício por pastéis de nata. Ela ria. Foi um Verão diferente, onde as férias permitiram a liberdade para viver o que até então desconhecia: que o toque das mãos era mais quente que os raios do sol e que o beijo deixava na boca um sabor salgado a mar, provocava uma sede constante e um vazio na despedida. 
 
Com as marés vivas de Setembro chegou também a tão ambicionada bolsa para uma academia de Londres. Era apenas um ano. Um gigantesco ano na vida de quem está apaixonada. Uma solidão inconsolável para quem parte, e para quem a vê partir esboçando um sorriso de boa sorte.
 
Carla viveu o seu sonho de bailarina em Londres, entre aulas e espectáculos, com pouco tempo para responder aos e-mails de João que, aos poucos, começaram a rarear. Acabou por ficar a viver em Londres 3 anos, quando recebeu uma proposta irrecusável de uma companhia participando em alguns espectáculos de divulgação internacional. No final de alguns chegou a receber uma pequena caixa de pastéis de nata. Tentou agradecer ao João mas o e-mail vinha devolvido e o nº de telemóvel tinha mudado.
 
Aos 20 anos voltou para Portugal, quando foi diagnosticada à tia uma doença grave de coração que a obrigou a reformar-se. Carla acabou por ficar e arranjou trabalho numa companhia de bailado. Não ganhava um ordenado certo, pouco mais de mil euros por mês, o que a fez arranjar alguns biscates como manequim fotográfico e dar aulas de ballet num colégio duas vezes por semana. Ganhava o suficiente para pagar a renda do seu pequeno apartamento em Belém, um refúgio com uma parede forrada de alto a baixo com um espelho, para quem ela diariamente dançava algo diferente, só seu.
 
Após 4 anos Carla voltou a encontrar o João, por acaso, numa livraria. Ele trabalhava na redacção de um jornal semanal e tinha horários bastante ocupados. Disse-lhe que estava a pensar casar-se e perguntou-lhe se ela também. Ela acenou-lhe que não, e desviou o olhar para baixo, como costumava fazer quando não queria continuar a conversa. Trocaram os contactos de telefone e e-mail e despediram-se.
 
Durante dois anos nunca mais se viram, mantendo contudo uma estranha proximidade por e-mail, telefone, sms. Mesmo depois de João se casar. Partilhavam tudo das suas vidas, as viagens que faziam, os livros que liam, os cinemas que viam, num cenário onde não havia lugar a terceiras pessoas.
 
 Naquele dia, no café com mais dois amigos, conversavam sobre os últimos ensaios do espectáculo que iniciava no dia seguinte. Carla tinha recebido nesse dia uma caixa de pastéis de nata com “Boa sorte” escrito à mão. Estava sentada de lado na cadeira com a perna cruzada sobre o joelho, com o seu habitual ar descontraído de final de dia. Uma sweat azul clara de capuz e fecho com uma gola alta roxa por baixo. As habituais calças de ganga justas onde terminavam umas botas altas de camursa castanha e debrum de pelo . Ajeitava a encharpe castanha que lhe cobria o cabelo desfrisado e por detrás dos óculos azuis rectangulares, que usava só quando lhe apetecia, vagueavam os seus olhos escuros inquietos. Olhava ansiosamente o telemóvel e num impulso ligou. Sussurrou algo imperceptível enquanto afagava a sua perna com a mão, consolando-a, num movimento suave como um compasso de dança.
«Que não podia», respondeu-lhe. Ela acenou e despediu-se como num deslizar de uma valsa triste.
Despediu-se também dos amigos, recusando a boleia que lhe ofereceram. Queria caminhar sozinha, embatendo na rua entre os corpos anónimos que raspavam no seu. Tinha sido sempre assim a sua vida.
 
Em casa colocou uma música suave e mais uma vez entregou-se a ele. Tudo o que sentia resumia-se àquele momento imaginário, onde o tocava e abraçava, no vazio da sala escura onde ele era seu. E mais uma vez dançou, sozinha, com o seu reflexo em frente ao espelho, até ao amanhecer.
música: Dncing with myself - Billy Idol e Iris - Ronan Keating
publicado por closet às 08:29
Quarta-feira, 03 / 03 / 10

Dacing with myself - cap 2

Capítulo 2

 
- Gostava... mas não posso, mesmo. Amanhã vou cedo para o Porto, tenho uma entrevista marcada para uma reportagem que estou a fazer - respondeu João no tom de voz meigo habitual – Vai correr bem amanhã, tens de arrasar não te esqueças! – rematou, desligando com um “Boa sorte”.
 
Voltou para a sala disfarçando o vazio interior que o telefonema lhe provocara. Margarida trabalhava na mesa de jantar inundada nos seus pocessos jurídicos. Fazia isso todas as noites. Nem reparou que ele tinha saído da sala, nem que tinha atendido o telefone. Margarida envolvia-se de tal maneira no seu trabalho que não ouvia telefones, não se lembrava das horas, até se esquecia de comer.
 
João conheceu-a pouco tempo depois de ter começado o seu estágio no jornal. Também ela estagiava num escritório conhecido de advogados, no edifício ao lado, e almoçavam muitas vezes no mesmo restaurante. Era uma mulher de 28 anos vistosa, extrovertida e faladora. Foi num dia em que o restaurante estava cheio, que partilharam a mesma mesa e a conversa fluiu. A garra pela vida, sabia exactamente o que queria fazer, os países que queria conhecer, todos os seus projectos encantaram João, sempre tão sonhador, e em menos de um mês ele estava a convidá-la para sair.
 
João teve uma adolescência feliz. O seu ar descontraído e sorridente, num corpo atlético, de quem praticou natação desde os 6 anos, seria suficiente para arrebatar o coração de muitas raparigas. Mas João tinha ainda uns olhos claros esverdeados, realçados no seu tom de pele morena e num cabelo geralmente despenteado. Não fosse a sua vincada personalidade, de quem nunca gostou de se evidenciar, e ele teria sido um dos mais populares da escola. Mas em vez de se dedicar a organizar as festas da associação de estudantes, João preferiu o pelouro menos mediático do jornal da escola. Estava-lhe no sangue andar de câmara fotográfica na mão e um bloco de apontamentos. E era a sua forma genuinamente divertida de relatar os acontecimentos que o tornavam irresistível. Sempre teve namoriscos que nunca duravam mais de um par de meses. Costumava dizer aos pais que eram “casos de investigação”.
 
Frequentava o 3º ano da faculdade quando conheceu Carla. Ele tinha 20 anos, mais 3 que ela, e namorava na altura com a Francisca, uma colega de curso que tinha por ele uma adoração pouco correspondida. Nunca falou dela a Carla, ainda hoje não sabe se foi por não ter considerado importante, se por medo de a afastar.
 
Conheceu Carla no café onde passou a tomar o pequeno-almoço perto da casa dos pais, na Ajuda, o mesmo onde a tia da Carla trabalhava. Também Carla era assídua no café logo pela manhã, folheando revistas, alheia ao movimento do café, enquanto bebia um galão acompanhado de um pastel de nata. João começou a sentir uma estranha atracção por aquela negra mestiça, de ar enigmático e ausente, sobressaindo logo o seu espírito curioso. «o que fará? Para onde vai?».
Um dia em que o café estava mais vazio arriscou meter-se com ela. Amachucou um guardanapo de papel e atirou-lhe. Queria acertar-lhe na cabeça mas o “míssil” acabou por aterrar dentro do galão. Impassível, ela retirou o papel com a colher e continuou a beber o galão como se nada se tivesse passado. «Esta é das difíceis» pensou entusiasmado. Nada lhe dava mais gozo que uma conquista difícil. Nova tentativa e desta vez acertou-lhe em cheio no cabelo desfrisado que apanhava com um travessão. Desta vez ela olhou-o de soslaio e torceu os lábios impaciente, num pensamento transparente «o que é queres?». João aproveitou o silêncio para aproximar-se.
- E não é que és real? Ía jurar que eras uma espécie de holograma... – disse sorrindo.
- Pode-se dizer que sou uma espécie de reflexo, sim, mas isso não te dá o direito de me baleares com bolas de gardanapos. Ou dá?
João apressou-se a pedir desculpa, que tinha sido infantil e apresentou-se de seguida com o seu ar mais formal, que contrastava nitidamente com o seu aspecto descontraído, de calças de ganga descaídas e camisa por fora. Contou-lhe que morava ali perto e que já a observava havia alguns meses naquele canto do café, sempre absorta em revistas que desfolhava rotineiramente sem os seus olhos prestarem atenção a qualquer página.  
Falaram um pouco das suas vidas e João cativou-a com a sua boa disposição. Ela impressionou-o com o seu sorriso inocente estampado no rosto sempre que ele falava. Era calma e doce, uma companhia perfeita a bordo dos sonhos de João.
Chegou Agosto e João acabara os exames. Ambos aproveitaram o período de férias para passear, ir à praia e deixarem-se ficar a namorar até ao sol ser substituído pelo luar. Foi num desses fins de tarde, em João levou o carro do pai para passarem o dia no Meco, que contemplaram deslumbrados o sol entregar-se ao mar, assumindo as mais bonitas tonalidades de laranja. Uma noite quente onde o brilho da lua iluminava o mar calmo, onde, embalados pelo barulho das ondas, também eles entregaram os corpos apaixonados um ao outro e adormeceram abraçados nas dunas até o sol raiar.
 
Quando Carla partiu em Setembro, João sentiu-se como um barco sem rumo a naufragar. Pela primeira vez sentiu na pele a perda de alguém e, acima de tudo, uma impotência por não a poder acompanhar. Despediram-se sem compromisso. E ele ainda recorda as palavras que orgulhosamente lhe disse “Vive o teu sonho e nunca te prendas por mim”. Carla tinha os olhos cobertos de lágrimas que teimavam em escorrer-lhe pela face e ainda perguntou-lhe confusa
- queres dizer o quê? que me vais esquecer?
- Não, nunca. Mas o destino quis que as nossas vidas tomassem rumos diferentes. Só isso. Vamos falando por telefone, e-mail, mas aproveita esta oportunidade e vive para ti.
João exagerou naquele discurso, reconhece agora que a frieza das palavras não foram capazes de extinguir a confusão de sentimentos que o queimavam por dentro. Mas, de certa forma, pensou ser a melhor forma de a convencer a partir e seguir a sua vocação.
 
Nos primeiros meses mandava-lhe e-mails quase todos os dias contando-lhe o dia a dia, mas Carla respondia-lhe sempre com uns dias de atraso. Não tinha computador no apartamento que alugara com uma colega e apenas acedia ao e-mail no bar da academia ou às vezes num Cibercafé que ficava a uns quarteirões do seu bairro.
João iniciava o 4º ano e também o estágio numa redação de um jornal. Tinha o dia bastante ocupado e era essa desculpa que dava regularmente para recusar algumas saídas com amigas e, pela primeira vez desde os 16 anos, não se lhe conheceu namoradas durante meses seguidos.
O estágio era remunerado, ainda que num valor igual ao salário mínimo, mas ainda assim reuniu algum dinheiro com o intuito de a visitar em Londres. Num e-mail perguntou-lhe em brincadeira “E se eu aparecesse pela tua chaminé no fim de semana vestido de Pai Natal?”. Como não teve resposta, e o telefone dela estava quase sempre desligado, sem bateria ou sem saldo, decidiu arriscar comprar o bilhete de avião para um fim-de-semana alargado. «Ela está a fazer um espectáculo importante, mas durante o dia tem algum tempo livre para estar comigo certamente» pensou entusiasmado com a surpresa que lhe ía fazer.
Ainda chegou a horas de assistir ao espectáculo nessa 6ªfeira à noite. Viu-a dançar maravilhado com a segurança que demonstrava em palco, muito diferente da Carla frágil que conhecia. A dançar ela explodia do seu corpo, deslizando em movimentos sensuais e inebriantes. A rapariguinha tímida transformava-se num verdadeiro tornado de mulher.
Quando o espetáculo acabou João procurou-a no camarim, mas disseram-lhe que tinha saído com os colegas, que costumavam ir celebrar. João percebeu que ela não tinha visto o seu e-mail, nem o sms que lhe enviara a dizer que estava a caminho. Apanhou um táxi até á morada dela, não tendo a certeza se devia ficar à espera ou se deixaria um bilhete pedindo-lhe para lhe ligar. Ainda assim tocou à campaínha. Era um bairro simpático nos arredores de Londres, de casas antigas mas bem cuidadas. Apareceu uma rapariga de cerca de 18 anos à porta.
- Sorry, I’m looking for Carla – disse com a sua melhor pronuncia.
- She no longer leaves here, se moved to another place one month ago. – respondeu-lhe.
Naquele momento João sentiu-se pequeno, minusculo, ridículo até. Uma mistura de raiva e ciúmes rasgaram o seu coração apaixonado. «Como podia ter pensado que ela estava ali, à espera dele? Talvez já tenha alguém… que ideia a minha» explodia em círculos como que a organizar as suas ideias.
João nunca chegou a dizer-lhe que tinha lá ído aquele fim de semana. Dormiu essa noite numa pensão que encontrou por perto e antecipou o vôo de regresso a Lisboa.
Carla respondeu-lhe ao e-mail uma semana depois. Disse que esteve em espectáculos todas as noites mas que adorava receber a sua visita.
João era agora um jovem com o orgulho ferido, por isso demorou uma semana na resposta. Disse-lhe que devia ser difícil, o estágio estava a ocupar-lhe muito tempo. Tempo que ía passando como um fio a escorrer pelo pescoço fino de uma ampulheta. E foi a partir daí que os e-mails começaram a rarear.
Em Abril ela telefonou a contar que tinha uma proposta irrecusável para dançar dois anos numa academia de envergadura internacional, perguntou-lhe ainda o que ele achava. A voz falhou-lhe no início, disfarçando com uma tosse:
- Eu não disse que ías ser famosa? Um dia ainda hei-de entrevistar-te!
 
 
Quando reencontrou Carla na livraria em Lisboa, João já tinha refeito a sua vida, já era um adulto, com compromissos, diferente do jovem sonhador. Mesmo assim, não conseguiu mostrar-se indiferente à sua beleza e doçura que não mudaram. O tempo mostrou-lhe que há memórias que nunca se conseguem esquecer, são como cicatrizes que se carregam a vida toda. Carla tinha marcado a sua alma num espaço mágico que ficara só seu e mesmo a distância, a que ele próprio se impunha diariamente, não conseguia apagar.
música: Lifehouse - Broken / Avril - Things I'll never say
publicado por closet às 08:26
Quarta-feira, 03 / 03 / 10

Dacing with myself - cap 3

 Capítulo 3

 
Susan tinha combinado com a Carla passar duas semanas em Lisboa. Vinha ver o seu actual espectáculo e aproveitar para conhecer a cidade. Tinha aprendido um pouco de português durante os anos que conviveu com ela em Londres, mas não o suficiente para entender a língua, recorrendo frequemente a dicionários de bolso e mímica, o que invariavelmente terminava numas gargalhadas misturadas em lágrimas de tanto rir.
 
Enquanto vinha no avião, recordava a primeira vez que viu Carla na Academia. O seu ar frágil e carente cativou-a de imediato e meteu logo conversa com ela. Percebeu que estava num quarto alugado e ofereceu-se para dividir apartamento com ela. Susan vinha de North Yorshire e não tinha qualquer familiar em Londres. Tinha na altura 19 anos, mais dois que Carla, e era uma rapariga franzina, sempre de jeans, camisolas compridas e encharpes enroladas no pescoço, que aparentava bem menos anos dos que realmente tinha. Não era particularmente bonita, de cabelo liso castanho num rosto pálido e sem qualquer traço especial. Mas não lhe faltavam pretendentes, na verdade carla admirava-se com as quantidade de tampas que ela dava aos seus admiradores.
E foi sobre esse tema que o fio do novelo se desenrolou. Susan era uma pessoa individualista, chegava mesmo a referir-se a ela própria como egoísta, e que a única prioridade na sua vida era dançar. Como um padre que sente um chamamento, também ela não perdia tempo com paixões que a desconcentravam. Era assim que escolhia apenas aqueles que nunca queriam nada sério, one night stand, era o máximo que podiam esperar dela. Carla demorou bastante tempo a compreender esta sua forma de pensar. Aos poucos foi-lhe falando do João, entre gestos e palavras soltas. Carla contou-lhe tudo sobre o único homem que amara na vida e em como tudo em seu redor perdeu a cor desde que se separou dele. Como uma sala de cinema vazia, escura, em silêncio, onde o filme que passa é mudo e a preto e branco.
Por altura de Novembro, após mais um email trocado, Carla confidenciou-lhe não aguentar mais, que ia desistir da academia e voltar para Portugal.
- E o curso, a bolsa para que tanto trabalhaste? - perguntou-lhe estupefacta.
Que não queria saber, respondia-lhe. As saudades estavam a consumi-la. Já não se sentia viva. A distância de João tornara o sonho num pesadelo, precisava de voltar.
Foi nessa altura que Susan a agarrou firme, e olhando-a nos olhos explicou-lhe que os sonhos, os mais importantes e desejados, quase sempre entram em conflito. Inevitavelmente temos de decidir quais os sonhos que vamos realizar e quais são os que ficarão, por agora, mergulhados no espaço imenso que é a nossa imaginação.
Nessa mesma noite Susan encontrou Carla a chorar no quarto. Por momentos assustou-se, pensando que tinha sido por tudo o que lhe dissera de manhã. Mas Carla agarrava algo que parecia uma carta.
- O que é isso? – perguntou epantada – do João?
Na sua voz trémula Carla acenou que não.
- É do Pedro, o irmão dele.
Contou-lhe que apenas o tinha visto uma vez, e mostrou-lhe a carta traduzindo cada palavra.
Carla, espero que estejas bem e a aproveitar ao máximo a tua bolsa. Desejo-te do fundo do coração muito sucesso na tua carreira. Mas tenho uma coisa a pedir-te: preciso que te afastes do meu irmão.
Todos temos sonhos, tu estás a realizar o teu. O do João sempre foi ser jornalista, fazer grandes reportagens. Mas neste momento acho que ele está a pensar seriamente em deixar o curso para ir ter contigo. O coração dele sempre falou mais alto do que a razão. Espero que não me leves a mal esta carta, mas pensa também no futuro dele, será feliz num qualquer emprego, deixando para trás aquilo com que sempre sonhou?”.
 
Susan tirou-lhe a carta da mão e olhou-a com os seus olhos grandes castanhos escuros.
- Sabes que ele tem razão… conseguirás tu ser feliz sabendo que mataste o sonho de alguém? E como achas que ele se sentirá se fizeres o mesmo ao abandonares esta oportunidade única na vida?.
Carla compreendeu-a bem, enxugou as lágrimas e a partir daquele dia começou a responder aos e-mails com dias de atraso e a não atender por vezes o telefone. Também viu o sms dele a dizer que vinha a caminho e desesperada fugiu para casa após o espectáculo.
Quando João tocou à campainha implorou a Susan para a ajudar “vai tu, por favor, diz que já não moro aqui”. Assim meio desprevenida, Susan abriu a porta a uns olhos verdes ansiosos que logo a comoveram. Ela própria nunca tinha experimentado tal estado de paixão, nem assistido à decepção de um olhar, perdido, quebrado, a uns braços a desabarem desamparados como uma derrocada. Pela primeira vez na vida questionou-se sobre se afinal tudo aquilo valia a pena, sobre o que faz de facto uma pessoa feliz.
 
Aterrou em Lisboa por volta das 12h, levantou a bagagem e, nas chegadas há se encontrava Carla acenando-lhe efusivamente. Susan tinha estado em digressão durante 6 meses pela Europa e Carla tinha sido a sua companheira de viagem e desabafos por e-mail. Ambas viviam resignadas à sua forma de solidão. Susan sabia por isso toda a história do casamento do João e a estranha relação que os dois mantinham à distância. Não questionava a amiga, limitava-se a ler os seus desabafos e ouvir as músicas que ela lhe enviava, aquelas que ela gostava de dançar sozinha.
- Miss you so –disse-lhe Carla abraçando-a com força. Um abraço que a fazia sentir no topo do mundo. Susan tinha uma adoração por Carla e aquelas duas semanas estavam planeadas desde o dia em que separaram.
A tarde passou rápido, nem saírm do apartamento pondo a conversa em dia, experimentando roupas umas das outras como crianças, mostrando novos passos.
Carla teve de ir cedo para o espectáculo e Susan tinha permissão para acompanha-la nos bastidores, estava no seu mundo e até era uma ajuda preciosa. Arriscou perguntar-lhe o que até então tinha evitado
- O João vem?
Carla abanou a cabeça
- Está no Porto, não pode vir, na verdade…nunca pode - e revirou os olhos ao seu jeito, como que para mudar de assunto.
Susan assistiu ao espectáculo no fundo da sala, onde apenas pode estar o pessoal autorizado. A sala estava cheia e a estreia era sempre uma emoção para qualquer bailarina. Susan observava atentamente os portugueses, como reagiam, a forma como aplaudiam. Num passar de olhos pela plateia no final da 1ª parte viu levantar-se na última fila um rosto conhecido. Não teve dúvidas nos olhos verdes e cabelo despenteado. Susan correu atrás dele segurando-o pelo braço.
- Olá – disse no seu melhor português – és o João não és?
João olhou-a confuso, também a reconheceu de imediato.
- E tu és a inglesa que ficou a viver no apartamento da Carla, certo?
Susan acenou-lhe que sim, e que precisavam de falar. Queria pedir-lhe desculpa, tinha errado, mas via agora com clareza, o verdadeiro amor vive-se, não se pode sonhar.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
música: Lifehouse - Blind
publicado por closet às 08:23
Segunda-feira, 28 / 09 / 09

Fábrica de Histórias

Floresta viva

Sofia corria de um lado para o outro. Já não tinha dúvidas que se tinha perdido. A lua iluminava o chão de terra por entre os ramos das árvores que se erguiam altas. As pernas começaram a tremer. Recolheu-se no leito de uma árvore enorme, assustada e com frio. O vento uivava assustadoramente, ela pecisava de descansar.
Aninhou-se deitada como uma concha e fechou os olhos por uns segundos. Algo quente se encostou nas suas costas. Sofia abriu os olhos de repente e sentou-se. Olhou para trás e não viu nada. Cansada voltou a deitar-te. Novamente sentiu um calor nas costas, e algo macio lhe circundou o braço. Ía mexer-se mas algo a prendeu e a envolveu de novo. Ouviu então uma voz “se estás bem, deixa-te estar”. Estava escuro e Sofia não conseguia ver ninguém. Mas o conforto que sentiu, como se estivesse a ser abraçada, aliado ao calor que irradiava. Sofia deixou-se ficar quieta.
Voltou a fechar os olhos e desta vez algo lhe percorreu pelas pernas. Assustou-se pensando ser um bicho, soltou um grito abafado. Mais uma vez ouviu “não tenhas medo, sou eu que te estou a abraçar”. A voz vinha do interior da árvore, já não tinha dúvidas. Alcançou a perna com a mão e sentiu um manto de folhas presas umas nas outras a tapar-lhe as pernas. Um ramo rodeava-lhe a cintura. Estarei presa? Pensou aflita. E o ramo soltou-se bruscamente. “Esse é o mal dos humanos... “ susurrou a voz. “Que mal?” perguntou Sofia ainda incredula que estaria a falar com uma árvore. “Deitam tudo a perder quando se questionam”.
Sofia voltou a deitar-e e a enrolar-se por entre as grossas raízes da árvore. Puxou o manto de folhas que deslizou até á sua cintura e voltou a segurar o ramo enrolando-o no seu corpo. A terra abriu um buraco por baixo dela, fofo, macio, mesmo do tamanho do seu corpo. O vento parou de uivar. Mais ramos vieram abraçá-la e aquece-la naquela noite fria de Outono. Sofia adormeceu tranquila, envolta em folhas e ramos.  Algo a abraçou naquela floresta, respirou junto ao seu cabelo, beijou-a suave no pescoço e aconchegou-a no seu peito firme. Acordou de manhã com a estranha embriaguez de quem acorda na cama com alguém que nunca viu. Passou a mão suavemente pelo tronco da árvore, um casco grosso e forte. Deu-lhe um beijo demorado e disse “um dia volto”.

 

texto escrito para a Fábrica de Histórias

publicado por closet às 00:10
Domingo, 13 / 09 / 09

A Morena e o Homem de Fato - Acto 4

Gisela gaguejou um "Claro" Aquele homem tinha uma lata... Mas na verdade tinha uma vontade imensa de jantar com ele, conhecer um pouco da sua vida. Parecia um vicio, quando mais tempo estava com ele, mais vontade tinha de o conhecer mais e mais.

Entraram no carro e ligou o carro. O perfume dele invadiu aquele pequeno espaço e Gisela não resistiu.

- "Vou enviar uma mensagem às minhas amigas, já que estás sozinho, faço-te companhia."

Artur sorriu enquanto ela teclava uma mensagem no telemóvel"Vou jantar com ele aqui em Cascais. Não quero saber!" escreveu e mandou para a sua amiga Raquel.

Ainda não tinha saído do parque de estacionamento já recebia uma mensagem de volta "Ele é um pistoleiro, depois não digas que não te avisei". Gisela levantou o sobrolho e fechou o telemóvel num ápice. Nada a faria agora mudar de ideias.

- "E então, ficaram zangadas?" - perguntou Artur.

-"Nãaa..."  - respondeu rindo.

- "Gostas de peixe?"

- "Adoro"

- "Óptimo, há aqui um restaurante fantástico. Estaciona ali ao fundo."

Gisela estacionou num lugar apertadinho mesma à conta para o seu carro. O restaurante era agradável e ainda não estava com muita gente. Artur conhecia o empregado e foram levados para uma salinha privada muito aconchegante. Aconchegante demais pensava Gisela.E sentaram-se cruzando olhares cúmplices.

Depois de pedirem, Gisela avançou com a conversa que a preocupava.

- "Essa aliança significa que tens alguém, presumo... "- lançou meio envergonhada.

-" Presumes bem... sou casado e tenho um filho" - disse com uma frieza que levou a um silêncio medonho.

Gisela ficou embaraçada por ter sido irónica.

- "Desculpa, acho que fui bruta...mas .."

Artur interrompeu-a

- "Não tem importância, tens todo o direito. Eu devia ter contado, mas não sabia como...assim "olha eu sou casado e  tenho um filho"...não me pareceu propriamente a melhor maneira de me apresentar... Estou casado há 11 anos e chegámos a um ponto em que há um certo desgaste, entendes? Cada um faz a sua vida em separado, é complicado..."

Gisela acenava com a cabeça mas efectivamente não compreendia. Tinha esperança que ele estivesse separado, que fosse livre, para não se sentir tão incomodada com a atracção que sentia por ele.

- "E que idade tem o teu filho?"

- "10, é uma idade gira, um companheiro da bola!" - sorriu e serviu-a de vinho - "e tu, tens alguém?"

- "Não, vivo sozinha, solteira e sem filhos, muito prazer" - gracejou Gisela. Não sabia mais o que dizer, tinha-se confrontado com a verdade, fria e crua, aquela que ela preferia não saber. Mas mesmo assim não podia evitar os olhos meigos e inquietantes à sua frente, o sorriso aberto e a sensação que já conhecia este homem há muito tempo. Falaram a noite toda sobre cinema, pintura e viagens que tinham feito. A conversa não se esgotava e eram 23h30 quando acabaram o café e sairam do restaurante.

Artur levou-a até ao carro

- "Obrigada , foi uma noite muito agradável."

- "Também gostei bastante, do peixe, do vinho, ahhh e da companhia, claro! "- disse Gisela por entre risos.

Nessa altura um silêncio ensurdecedor apoderou-se dos dois. Apenas os olhos conseguiram dizer o que os lábios teimavam abafar. Os olhos fundiram-se primeiro, num beijo demorado. Como que encandeados por uma luz forte. Depois foram os lábios que escorregaram na mesma direcção e deixaram-se ficar. Saborearam-se por momentos perdidos no tempo. Artur rodeava os braços à volta da cintura de Gisela e ela sentiu um estranho conforto familiar, ancorada no seu peito entroncado. Desejava ali ficar o resto da noite... o resto da vida. Estava apaixonada e sabia-o de cor. Os lábios soltaram-se e, ainda a tremer consegiu dizer aquilo que não queria.

- "Ambos sabemos que isto é um projecto inviável."

Artur acenou, e afagando-lhe os caracóis disse com uma voz sumida

- "A vida tem destas coisas, a pessoa certa na vida errada" - soltou os seus braços e afastou-se de mãos nos bolsos em direcção ao hotel. Não olhou para trás.

Gisela viu-o desaparecer, com a sensação do chão estar-lhe a fugir, como se caminhasse em contra-mão numa passadeira rolante. Era uma luta inglória contra o tempo, contra o destino.

Entrou no carro de lágrimas nos olhos, com uma vontade louca de correr atrás dele. Mas seguiu em frente, sem hesitar.

E já na solidão da sua cama, apenas aquele beijo trepidava na sua cabeça como um sonho proibido de uma noite de verão. Um intruso delicioso, apetecido.

Gisela decidiu não voltar mais aquele café de manhã. Apagou o seu telefone. Mas ainda não se cansou de o sonhar. 

The end (bem, logo se vê!!)

publicado por closet às 22:15
Sexta-feira, 28 / 08 / 09

A Morena e o Homem de Fato - Acto 3

O dia teimava em não passar… Gisela olhava constantemente para o relógio, impaciente… Já tinha decidido telefonar-lhe. Não queria saber, apetecia-lhe e pronto. Que mal poderia ter? Afinal via-o todos os dias de manhã, tomava o pequeno-almoço ao lado dele… porque razão não poderia também tomar um copo ao final da tarde?

Raquel torturava-a com a mesma pergunta sempre que passava pela sua secretária “Então? Já decidiste?” e fazia-lhe um sorriso trocista que imediatamente fulminado pelos enormes olhos verdes de Gisela.
Às 18h00 ela já não aguentava mais. Lá fora estava um dia de sol brilhante e a ansiedade já tinha tomado conta dela.
Despediu-se da Raquel com “Depois telefono-te” e correu para os elevadores para não lhe dar qualquer hipótese de comentário. Ainda ouviu a voz da sua amiga gritar “Giiii “ mas já era tarde, entrou no elevador e respirou fundo. O coração batia descompassado, parecia que tinha acabado uma prova de atletismo. Apanhou o metro até casa, raramente ía de carro para o trabalho, o parquímetro não lhe compensava. Subiu até ao 2º andar onde vivia para buscar as chaves, passou pela casa-de-banho para borrifar um pouco de perfume e ajeitar os seus longos caracóis castanhos, e correu novamente para a rua. Ligou o carro e conduziu desenfreada pela auto-estrada até Cascais. Estacionou num lugar mesmo junto às escadas que desciam para o bar da praia e ainda com o rádio ligado agarrou no telefone e vasculhou na mala o pedaço de pep com o número. Encontrou-o e reparou ao segura-lo que a sua mão tremia como uma adolescente num primeiro encontro. “Raios partam o gajo! Era o que me faltava no curriculo...” pensava desconcertada.E se o nº fosse falso? Se ele estivesse a gozar com ela e o número era de outro amigo qualquer?A morena sacudia a cabeça como que para afastar estes pensamentos.Iniciava a marcação e desistia.
E se ele dissesse que não queria ir? Ficava chateada, claro. Era uma verdadeira tampa… E depois como o iria encarar no dia seguinte no café?
Decidiu parar de fazer filmes e arriscar.
O telefone chamou três vezes e Gisela já ía preparada para desligar quando uma voz familiar atendeu com um “Tou?”...
- “Eu também tou” gracejou Gisela para disfarçar os nervos “sou eu, a Gisela,... do café de manhã...” – de repente a morena sentiu-se ridicula, aquele homem tirava-a do sério.
-“Ahhh... olá” – respondeu já com o seu habitual tom trocista – “sempre telefonaste”.
Gisela ficou furiosa, o tipo era mesmo convencido... não resistiu a dizer-lhe
- “Na verdade estou com um pneu furado e queria pedir-te para o vires mudar, que sorte ter aqui o teu telefone num papel”.
Ouviu-se um silencio do outro lado, até que Artur balbuciou
- “Ãaaa?... claro, onde estás?”               
- “Em frente a um bar com uns pufs vermelhos e umas mesas baixas redondas, espera...o toldo diz Sem pressa”....- Gisela já tinha saido do carro e descia as escadas para a praia.
- “É esse mesmo” – disse soltando uma gargalhada – “dá-me 5 minutos e estou aí”.
Gisela sorriu radiante com o à vontade que conseguiu demonstrar, na verdade sempre se saiu melhor na comédia do que no drama e esta vez foi mais um exemplo disso.
Escolheu uma mesa vaga e sentou-se relaxada no puff. Era a “hora da Loira” e cada imperial custava apenas 1€. Explicou-lhe o empregado, magro e baixinho, com o cabelo oxygenado e a tez queimada pelo sol. Gisela aceitou uma imperial, recostou-se no puf e colocou os phones nos ouvidos. Ao longe viu a descer um vulto de fato escuro e de camisa desabotoada no colarinho, já sem gravata. Artur tinha um ar descontraído que lhe agradava. Era ele, de óculos escuros Prada e um sorriso rasgado.
- “ Desculpa a demora, mas o pneu foi dificil de trocar
Gisela soltou uma gargalhada e ía a levantar-se para o cumprimentar mas ele segurou-lhe o ombro e baixou-se. Os rostos rodaram ao mesmo tempo no mesmo sentido. Riram-se embaraçados e Artur segurou-lhe o rosto e deu-lhe um beijo na cara. Ela sentiu-se a corar. Artur pediu também uma cerveja ao empregado esticando apenas o braço, Gisela percebeu que já se conheciam.
- “Costumas vir aqui?” – perguntou Gisela em tom de conversa.
- “Às vezes, quando posso. E tu, gostas do ambiente?
- “É agradável... também gostava de trabalhar aqui perto da praia
Falaram um pouco sobre o trabalho de Artur e depois Gisela contou-lhe da casa de férias dos pais na Comporta, onde passou muitas da suas férias de infância. O sol já desaparecia no mar e a esplanada estava a fechar.
- “Queres andar um pouco pela areia?” – perguntou-lhe Artur com o brilho nos olhos que encandeavam a morena. Disse-lhe que sim e descalçou as sandálias.
- “Gosto de sentir os pés a enterrarem-se na areia” – disse. Artur sorriu e acenou com a cabeça
- “Eu também”.
Sentaram-se à beira mar a conversar enquanto o mar reflectia o céu estrelado como um espelho.
- “Não imaginava estar aqui contigo um dia
Gisela olhou para ele admirada “Comigo? Porquê?
- “És como um sonho de verão num dia frio de Inverso, percebes?
- “Não, não percebo... mas nem sempre tenho de perceber... está a ser bom estar aqui, isso é o que me importa ” sorriu Gisela sentindo um arrepiu por dentro. Artur olhava-a novamente daquela forma que a perturbava, parecia que lhe estava a ler a alma, a beijar o espírito.
-Tens frio?” – perguntou-lhe, passando a mão pelo braço de Gisela que se arrepiou.
-“Não, mas não sei se por muito tempo”           
Colocou-lhe o seu casaco pelas costas chegando-se mais para perto dela.
- “Hoje fico por Cascais, tenho uma videoconferência amanhã às 7h00 e reservei um hotel. Queres jantar cá comigo?"
A morena estremeceu. Afinal tinham falado sobre tudo menos sobre o estado civil actual deles os dois. E ele tinha uma aliança no dedo mas Gisela não sabia sequer como abordar o assunto.
Gaguejou um “aaaa...tinha combinado com umas amigas jantar...preciso telefonar-lhes...
Artur interrompeu-a “Se não te apetecer não faz mal, fica para outro dia”.
Gisela levantou-se nervosa, claro que lhe apetecia, e claro que não tinha jantar nenhum... a sua cabecinha atingia as 1000 rotações. “Tinha de telefonar à Raquel a perguntar-lhe a opinião. Ou não, ela iria desencentiva-la” - pensava.
Artur caminhava ao seu lado com o seu habitual ar solitário que estranhamente a encantava. Chegaram ao carro “È aqui” - disse a morena - “Já te esqueceste do pneu que mudaste?” - gracejou para quebrar o gelo que se inha instalado - “Onde está o teu carro?
- “Ficou já no hotel, ali ao fundo daquela rua” apontou - “Dás-me boleia?
publicado por closet às 01:07
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