retalhos em bruto - o Nº 4
(...)
Era a primeira vez que viajava de avião sozinha e logo para tão longe, mas não estava nem um pouco assustada. Antes pelo contrário. Sentia uma liberdade imensa, como se me tivessem aberto uma janela após dias a fio de escuridão. Eu própria, sozinha comigo, era... tanto.
O check-in foi rápido e o tempo de espera no aeroporto acabou por parecer-me uma eternidade. Por sorte tinha conseguido um lugar na janela, era mais confortável e sempre podia encostar-me para dormir se me apetecesse.
Quando vou para desligar o telefone, vejo 3 novas mensagens. Uma da Marina com o telefone de uma amiga americana, para que eu não me sentisse sozinha (ela ainda não tinha percebido que eu queria isso mesmo, estar sozinha, conhecer livremente um mundo novo, unicamente pelos meus sentidos e aquela era a oportunidade da minha vida...). Ía apagar a mensagem, mas acabei por ficar com o telefone da Dasy, podia ser-me útil, numa cidade desconhecida..., assim, só para uma emergência, claro!
As outras duas eram do Rui. Nem podia esperar outra coisa. A primeira às 6h10 " Telefona antes de embarcares. Amo-te." A segunda às 7h00 "Mesmo distante, estarás cravada no meu coração. Sempre. Amo-te eternamente." Esta última arranhou-me, não com a emoção de há 3 anos atrás, infelismente. Antes com desespero. Rui era professor de Literatura na Universidade Nova. Tinha sido um aluno destacadíssimo no seu curso, fez o mestrado quase a brincar. As palavras eram a sua arma mais poderosa. Foram elas que me conquistaram quando eu ainda estava no início da faculdade, e ele era um finalista, bem falante e atraente. Foram elas que me seduziram durante 3 anos de namoro. Aos poucos percebi que eram apenas palavras, às vezes mesmo citações que trazia escritas na sua inseparável Moleskine. Tinha sempre as palavras certas, ora alegres, ora dramáticas. Mas sempre palavra cegas, surdas e mudas.
Tratavam-se basicamente de monólogos. Comunicações unilaterais. Ele nunca esperava resposta, acho que nem lhe interessava. As suas palavras eram demasiado importantes para serem interrompidos por zumbidos, interpeladas por perguntas inúteis.
Olhava para as palavras "cravada”e “eternamente” e tive a certeza que era daquilo que mais fugia: estar cravada a algo ou alguém era verdadeiramente assustador.
Respondi-lhe apenas “Atrasei-me. Estou mesmo a embarcar. Telefono quando aterrar.” Ía escrever “Amo-te” mas apaguei e subsitituí por “Bjs". Pareceu-me melhor. Desliguei o telefone de imediato. Não tinha vontade de ter uma daquelas conversas que terminavam invariavelmente numa discussão.
O meu lugar era mais ou menos a meio do avião. Junto à janela como me tinham garantido. Tirei apenas o meu livro da mochila, coloquei-a no compartimento por cima e preparava-me para começar a ler quando um sujeito, ainda com ar de sono, me interrompeu.
- Sou aqui ao seu lado, importa-se que passe a sua mala para o compartimento ao lado que está quase vazio para a minha mochila caber aqui?
A mochila dele, com ar sebento, e aspecto de ter andado na 2ª Guerra Mundial, era de facto enorme. Mas mesmo assim achei que haveria espaço para as duas, afinal a minha 'mala', como ele lhe chamou, era uma mochila pequena e citadina. Respondi-lhe:
- Penso que cabem as duas. Eu não me importo que a minha 'mochila' fique apertada - gracejei.
- Bem, Sendo assim.... acho que vão ter mais intimidade que a maioria dos casais - e continuou com uma voz meio rouca - 8h de intimidade seguidas, entrelaçadas, alças a penetrarem umas nas outras, fechos a roçarem, bolsas a tocarem-se impunemente. Hummm... E tudo no escurinho mesmo por cima das nossas cabeças… Uma orgia invejável, não te parece?
"te parece" pensei. Agora já era "te", dei-lhe a mão e já agarrou o braço...
Sentou-se pesadamente ao meu lado depois de fechar o compartimento. Parecia não dormir há 3 dias, talvez 4. Sei lá. O cabelo cor de palha um pouco comprido, ondulado e com ar de não conhecer um pente há semanas, a pele morena, demasiado para aquela altura do ano 'devia fazer surf ou algo no ar livre' pensei. Os olhos eram grandes de um verde mesclado, tinham uma cor indefinida. Mas eram eles que lhe davam toda a expressão ao rosto, a maneira como os abria e fechava, como ziguezagueavam enquanto proferia aquela enchorrada de disparates. Tinha talvez 1,80m e um corpo esguio. Não consegui perceber a contituição do seu corpo escondido por baixo de umas calças de ganga russas, descaídas e largas e uma sweat preta deslavada com uma estampagem de algo irreconhecível, também larga demais para o seu tronco. À parte de ter a barba por fazer há pelo menos 2 dias, não lhe encontrei nenhum sinal particular. Tinha nitidamente ar e voz de bohémio, cheirava a tabaco e gin e tive a certeza que tinha vindo directo de um bar de frequência duvidosa.
Mesmo assim, não consegui ficar indiferente à sua loucura, e respondi-lhe na mesma língua sorrindo:
- Sim, sem dúvida vão divertir-se mais do que nós.
- Bem... não seja por isso, há ali ao fundo uma casa-de-banho pequenininha, desconfortável eu sei, mas acho que caberiamos lá os dois...- disse com ar repentinamente sério, contendo um riso ao ver o meu ar enfadado – Ah, pois... lá não dá para desligar as luzes, não tinha a mesma graça.
E recostou-se fechando os olhos, fingindo nem perceber o meu ar de desinteresse. O ar esgazeado dele bastava para perceber que ainda vinha com os efeitos da noite a percorrer-lhe o sangue. Coloquei o cinto e o meu livro por cima das pernas, como para lhe mostrar que não ia existir qualquer espaço para conversa entre os dois. Ele reparou e lançou um olhar trocista, entortando o pescoço para ler o título 'Sputnik meu amor'. Arrependi-me logo ter trazido aquele livro, com aquela criatura ao meu lado escapou-lhe logo, revirando os olhos para cima suspirando.
- Nada como um amor no espaço…
Aquele tipo não perdia uma oportunidade e a verdade é que tinha de admitir que até tinha graça. Não consegui evitar um sorriso, ainda que ele me pudesse custar atura-lo com mais disparates o resto da viagem.
Finalmente descolámos e nesse momento ainda tive de ouvir um “Iuhuuuu... Sputnik, cá vamos nós”.
Como seria de esperar, o tipo não estava só de ressaca, mas também com a noite em branco. Ainda não tinham passado 20 minutos e já ele estava completamente ferrado a dormir, descaindo constantemente a cabeça para cima do meu ombro. Por mais que o empurrasse nada o fazia acordar. ‘Era só o que me faltava' pensei, 'com sorte tenho de passar 8 horas com um tresloucado desconhecido, a tresandar a cigarros e alcool, estatelado no meu ombro’.
E assim foi a minha sina a viagem inteira. Com uma breve pausa para almoçar (que tenho a impressão que o fez de olhos fechados) e uma ída à casa-de-banho numa espécie de sonambulismo atrás de mim (e nessa altura tive algumas esperanças que adormecesse por lá ou não conseguisse voltar ao lugar, qualquer coisa servia desde que me livrasse dele. Mas nada, voltou e continuou no seu sono de belo adormecido).
Faltavam 30 minutos para aterrarmos quando resolveu acordar do seu sono profundo. Espreguiçou-se ruidosamente e ainda teve o desplante de dizer:
- Que bela viagem - continuando a bocejar incessantemente.
- Ai sim? Só se foi para ti, eu tenho um hematoma no ombro com toda a certeza...- respondi-lhe arrumando o meu livro na bolsa do banco da frente. Pela primeira vez ele pareceu perceber o contexto real, e vi na sua expressão algo semelhante a um ar envergonhado, se é que ele era capaz de tal sentimento.
- Peço desculpa - e olhou para o meu ombro amassado tocando-lhe ao de leve– sinceramente não tinha intenção de massacrar-te a viagem toda.
A sua voz parecia de repente estupidamente educada e sincera, longe dos gracejos anteriores, para além de um tom rouco aveludado, quase sensual.
- Vá, deixa, já estamos a chegar e devem existir pomadas em qualquer farmácia de Nova Iorque - gracejei sorrindo-lhe.
Ele pareceu aliviado e comportou-se de forma normal até aterrarmos. Mal nos levantámos cumprimentou-me como se estivesse a ver-me pela primeira vez, assim à laia de balconista de hotel.
- Welcome to New York! Boas férias
- Obrigada, mas não estou de férias – disse com um certo orgulho súbito, como se fizesse aquela viagem de dois em dois meses.
- Ah não? Hum... que pena. Olha, nem eu - e levantou-se abrindo o compartimento das mochilas, mas voltou a fechá-lo de repente. Olhando horrorizado para mim e abrindo os seus grandes olhos verdes.
- Ainda não estavam vestidas - e desatou a rir.
Soltei uma gargalhada inevitável. Afinal os disparates não eram resultado do sono ou do que tinha ingerido, ele era mesmo assim. Voltou a abrir o compartimento e entregou-me a minha mochila.
- Hummm… - olhei-a atentamente - parece feliz!
- E haverá algo melhor que fazer amor nas nuvens? - e piscou-me o olho sorrindo. Fazia uma espécie de covinhas de lado, apesar de estarem tapadas com a barba por fazer. Imaginei-o de banho tomado, cabelo lavado e barba feita e a imagem pareceu-me bastante mais agradável.
Separámo-nos no aeroporto com um “tchau, até um dia” e vi-o desaparecer no meio da multidão, com a sua velha mochila às costas. Ao que parecia não tinha bagagem de porão. Fiquei ali parada, estática, por uns segundos estranhos, a acenar-lhe com o olhar, aquele sujeito louco, de andar desengonçado e voz rouca aveludada, estupidamente divertido. O que faria ele ali? E dei por mim a abraçar a minha mochila contra o peito, como se fosse assim abraça-lo também, numa espécie de despedida de um sonho, do qual se acorda contrariada ainda com as imagens nítidas mas desordenadas no cérebro.
(...)